[Alguns trechos de mim...porque as palavras são espelhos...]

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A árvore do meu (re)pouso


(Duy Huynh - Place Of Steadiness)


[àquele que se faz imensa árvore onde posso pousar,
em meio à tormenta ou à minha tristeza,
e para quem sou âncora 
que não lhe impede de navegar...]


porque eu estava morrendo, amado,
e te estendi a minha mão,
e tu me disseste que estavas comigo
bem ali, segura dentro de ti,
e eu, então, te soube raiz, caule, 
folhas, flor, fruto, no meu peito,
te soube imenso, teto, braço, ombro,
homem, abrigo, centelha, amigo, amor
que se fez em mim, eternamente

e tu sustentaste o meu pouso
e o cansaço das minhas asas,
e na firmeza do teu corpo, amado,
descobri abrigo e redenção,
renasci outro pássaro, e o que era pranto
em teu abraço se fez voz e verso,
e canto agora para ti, amado,
e meu canto, tu entenderás,
é de amor e permanência



[Andrea de Godoy Neto]

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Despedida a um dezembro em cinza(s)


(Duy Huynh - The Flower Bed & The Pillow Book)


Finda dezembro, jogo uma flor a terra
Morre o ano, enterra-se com ele um amor que não morre
Passa o tempo sobre os solos sa(n)grados
O vento cantou nos abismos, mas os tolos ouvidos não creram
Todos os pés pisaram todas as terras e, ainda assim,
Ninguém chegou à terra prometida, ninguém conheceu o lar
Porque sobre a areia todos os passos se apagam
E, sobre as águas, não há bússola que ensine o norte quando se navega em círculos

Finda dezembro e, com ele, finda uma parte de mim
Não vou chorar por ela, nem escrever um epitáfio
Todas as palavras já foram ditas, embora nem todas tenham sido ouvidas
Há palavras que escorreram pela parede de vidro e jazem inertes no chão
Há verdades que nem todas as bocas unidas podem dizer
E outras que nem todos os silêncios do mundo podem compor, e ainda assim elas existem
E resistem às ingênuas cortinas, véus que nada escondem, soprados por um vento forte
Um a um rasgados sobre o manto de espinhos que cresce onde havia flores

Finda dezembro, extraio do peito a última dor
Todo o vazio que restou é o imenso espaço onde me posso habitar
Encho um cálice com a tristeza que ainda restava, não beberei!
Lanço-o às pedras para que se estilhace, que o sol evapore as lágrimas até restar apenas sal
Que os cacos de vidro sejam pequenas estrelas cravadas na terra e reluzam como eu não pude
Finda dezembro e, com ele, finda aquela que um dia eu fui.
Mais adiante renascerei. E nada será como antes.





[Andrea de Godoy Neto]

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

(des)caminhos


(girl of the ocean - by foureyes)


Não sou aquela mulher por quem choras

Nem aquela perdida no tempo a quem imploras regresso

Já não sou a fada dos sonhos que um dia tiveste

Nem a fêmea com quem cumpriste o cio, feliz ou triste

Já não sou a outra que se desfez em cristais de sal

Nem, tampouco, a puta que fez do teu corpo leito e deleite

Não, já não sou senhora dos teus olhos tristes

Nem tu és porto onde eu possa chegar

Mas, ainda assim, o traçado do tempo costura nossas distâncias

E, vez que outra, cruza nossos (des)caminhos

Somos, então, rio e mar e, por um instante, foz.


[Andrea de Godoy Neto]

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Circunscrição


(Steven Kenny : The Circle)


Há um pequeno espaço onde tu não me podes chegar,
Há um pequeno espaço, ínfimo círculo que me resta, onde resto ainda sem ti.
Há um pequeno traço que separa o pouco de mim que ainda tenho nas mãos
De todo o resto que já foi devastado, tudo o mais é solo inundado.
Há um pequeno círculo traçado no chão, desenhado na areia com a ponta dos dedos,
Sei que ele é vão, ilusória proteção. Mas há outro círculo, ainda menor,
Riscado debaixo da pele, tracei-o com a lâmina com que me sangraste.
Dentro dele eu busco proteção, me encolho, dobro a alma, me faço pequena,
Bicho ferido, arisco, não me arrisco do lado de fora. Só quando o corte cicatrizar.
Só quando o corte cicatrizar deixarão de haver círculos que me protejam
Ou que nos unam.


[Andrea de Godoy Neto]

domingo, 4 de dezembro de 2011

Acalanto para Roberto*



(Duy Huynh: A Song After The Rain Has Gone)


(para Roberto Lima)

[mas nada é tão doce quanto o rio que te percorre e por onde escorre
a tua saudade, sobre vales e montes
e Minas sem fim...]

Poesia, amigo
são teus olhos, passarinho
distante do ninho, vastidão
colo, solidão, algum cobertor

estendo a mão e todo
o azul que teces me enternece
e faz do mundo, latifúndio
pomar de afetos tão perto do meu chão

olho-te de perto e o anti-homem vira Quixote, Ulisses,
ora gigante, ora menino adoçado na beira do rio, sempre poeta
e acho tão bonito o tempo que te fez assim,
cada pedra, palavra, sorriso, poeira, música, lágrima, abraço, saudade

e tudo é verso na tua voz que se espalha, embala
e reverbera (mansa) no espaço onde me habitas
e eu te escuto, te pressinto, ainda que tudo se cale
e te reconheço, eterno, nas voltas contidas no tempo, amigo.






*Este poema foi escrito para o 

Sarau Roberto Lima 

(Imagem by Tuca Zamagna)
em comemoração ao aniversário do querido jornalista, escritor e poeta Roberto Lima, no dia 04/12, muita gente boa se reuniu para deixar seu recado, clique aqui para conferir.

[com: Tuca Zamagna, Marcantonio, Pedro Ramúcio, Juliana Vinagre, Tânia Contreiras, Mirze, Paulinho Pedra Azul, Daniela Delias, Wilson Nanini, Assis Freitas, Wilson Pereira, Líria Porto, Nina Rizzi, Dade Amorin, Marcelo Sguassabia, Jorge Pimenta, Laura Alberto, Fernando Campanella, Marcos Pizano, Kledir Ramil, Lelena Terra (Bípede falante)]




quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dezembro

(Duy Huynh - GardenKeeper)

[porque dezembro sempre traz mais azul 
ao céu do sul...]


é dezembro
e todo o calendário desfolhou-se
em dias de ausências
ou de presença em lonjuras

é dezembro
e, mês a mês, este ano fez-se
de esperas partidas
e chegadas inesperadas

mas é dezembro
e em toda parte o mundo se faz festivo
e eu me alegro, é dezembro
e em dezembro, tu vieste!




[Andrea de Godoy Neto]