[Alguns trechos de mim...porque as palavras são espelhos...]

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Do embaralhar de versos...


*Nesta postagem há três poemas interligados. “Paredes Pichadas por pegadas de lagartixa”, foi escrito em parceria com o poeta Daniel Hiver. O poema foi escrito tão espontaneamente quanto a conversa que estávamos mantendo. Daniel teve a ideia, escreveu alguns versos, eu escrevi outros e nossos versos foram se embaralhando, se aproximando, se entrelaçando...coisa de amigos que se reconhecem, se entendem e, por vezes, se complementam. Foi tão fácil e tão prazeroso escrever este poema que, tendo-o pronto, resolvemos escrever outros dois poemas derivados, cada qual com nossa própria identidade. Daniel, então, nos oferece este poema profundo, intenso, forte, carregado de seu universo mais íntimo: A orquídea e os anéis de sorvete”. E, alguns dias depois, enviei a ele a minha releitura dos nossos versos: Sobre asas e lagartixas”. Quero registrar o imenso prazer que foi afinar nossa empatia desta forma, pois o Daniel é um poeta muito intenso, catártico muitas vezes, e seus versos sempre nos carregam para uma viagem ao seu interior. Eis o resultado:



PAREDES PICHADAS POR PEGADAS DE LAGARTIXA
( Daniel Hiver e Andrea de Godoy )

O que sou soa peça enjambrada
riscos absurdos em uma parede pichada
como se minha história toda
fosse a da página arrancada...

A tinta ressecada não guarda lembrança
descasca a camada da pele,
desbota as palavras que já foram escritas

Como adulto que quer voltar a ser criança
e repetir palavras que jamais foram ditas...

Palavras escritas nos troncos de árvores
desenhadas na areia onde se perdem...
- Onde se perdeu minha voz?

Onde encontrei o verdadeiro prazer do silêncio!

No silêncio me sou bem mais
abro portas, me reinvento
me enjambro com novas estruturas

Rastejo fundo e caio no topo das maiores alturas
e o vento leva embora tudo que era tão certo
e que virou mera conjectura...

Escalo paredes lisas
onde lagartixas se perdem nas rachaduras
deixo a marca dos meus sapatos nas alturas

E pegadas de criminoso!


A ORQUÍDEA E OS ANÉIS DE SORVETE

Sou a peça enjambrada
que alguém descobriu num ferro velho
de sonhos adiados!

Uma triste parede suja
cheia de lemas idiotas...

Pares nada parelhos de namorados
em corações desenhados de qualquer jeito
e todos tortos!

Nasci filho único dos becos frios
e das calçadas molhadas...

Minhas manhãs não são convencionais
e meus programas de variedades não variam!

Sou o cara do filme de trinta segundos
da nova campanha dos desajustados!

E a dúvida cruel
é se a pequena grande história
cabe numa página arrancada...
- Ou numa página virada!

Sou recado escrito por caneta
que marca fundo o papel
mas que não escreve...

Não guardo lembranças!
Não como, não amo!

E o que sou e não sou
eu sei e não sei,
por que minhas palavras
são a própria estupidez!

Meio adulto, meio criança
estou sozinho quase toda vez...

Radical e rudimentar!
Coercitivo e assertivo!
Cansado de viver
eu faço de conta que vivo!

E falo sozinho
Por que estou na ilha deserta...

Estou no banco dos réus,
no para-raio dos arranha-céus.
Sou da “Polizia” e da “Ommerta”...

Escrevo versos cegos
a ponta de canivete afiado...
O tronco das árvores
é meu papel de pão...

Versos intrigantes
convivendo pacificamente
com parasitas e orquídeas!

Minhas pegadas no asfalto
somem como se fossem na areia da praia...

Não deixo vestígios
quando perco a voz
e dou um vôo de gozo
no intenso prazer do silêncio!

Limpo paredes mofadas
com panos úmidos de poesia espontânea...

E minhas idéias estão embebidas
de improváveis águas azuis mediterrâneas...

Fecho portas que se abrem
quando meus olhos amanhecem...

As ruínas e os escombros
ornam meus horizontes
com diamantes e anéis de sorvete...

E minhas mediocridades
invadem o território das obras-primas...

Por que não há saídas de emergência
em salas particulares de cinema...

E minha geometria
é um intrincado e difícil teorema...

Por que rastejo quando devia subir escadas.
E quando estou nas alturas só consigo olhar para baixo...

Num piscar de olhos vou sem ir
da terra de gelo dos pingüins
às lavas incandescentes de vulcões interiores
que nunca apago...

Por que se dependesse hoje de um afago
qualquer ação me pulverizaria...

Por que convivo com edredons de sonhos desconcertantes
e tomo pílulas de otimismo bobo...

O vento da realidade frívola é forte.
Mas pelo menos as óbvias razões
não me contaminam...

Tento escalar paredes cheias de rachadura
onde só há lagartixas
e solo coberto por flores de agrura...

E as pegadas que vou deixando
são as de um criminoso,
que calça 43
e que mata o próprio tempo
com requintes de crueldade...

E assim vou adiante foragido
de minha própria auto-estima!
90 versos de pura e irritante perplexidade!




SOBRE ASAS E LAGARTIXAS
( Andrea de Godoy )

Não sei ser peça recondicionada
Remendos e enjambres
Não sustentam minhas pernas tortas
Tenho asas!

Não importa que toda a minha história
Seja página virada ou parede pichada
Sobre pele descamada onde desbotam
As palavras ressecadas

Não volto meu olhar sobre o passado
O que foi dito e o que foi silenciado
Ainda está gravado no pó que sustenta
As árvores da minha inocência

E minha voz, que hoje é tantas
No silêncio se reinventa
Abre portas, traça novas rotas
Caminhos, por vezes, definidos no grito

Conheço a terra úmida que jaz
No fundo de um poço [e não gosto de lama]
Mas é nas alturas que me reconheço
No topo me sou melhor

Escalo montanhas de nuvens
Árvores e paredes movediças
Onde não encontro sequer uma lagartixa por companhia
E deixo como pegadas um rastro de asas
                                              [ainda que combalidas]

Protected by Copyscape Duplicate Content Finder

6 comentários:

  1. Lindíssimos poemas!
    Parabéns!
    um beijo carioca

    ResponderExcluir
  2. Andrea... Estou aqui para deixar meu comentário aos pés de tua postagem. É preciso reafirmar o grande prazer que tive em dividir (compartilhar) essa experiência contigo. A teu pedido eu encurtei "tua superestimação". No entanto, ao ler o teu texto introdutório eu fiquei pensando que também não mereço tantos adjetivos. Apenas escrevo o que sinto. Um grande abraço e, mais uma vez, obrigado pela parceria.

    ResponderExcluir
  3. Andréa!

    AMEI os trés poemas. O Primeiro me encantou pelo esmero de pichar como lagartixa.

    O de Daniel Hiver, é o máximo. Quando se pensa indo, está chegando e com um final espetacular!

    O terceiro, para meu espanto, não complementou o primeiro. Outro lindo poema!

    Parabéns à dupla!

    Beijos

    Mirze

    ResponderExcluir
  4. esses lagartixas são irmãs dos silêncios e deslizam em nossas urgências,


    beijo

    ResponderExcluir
  5. esplêndida postagem, querida andrea. em poesia não há rankings, mas o terceiro, em teu nome próprio e individual, tocou-me de modo especial. afinal, há escaladas em tons de pele, sangue e sol. tudo o mais é memória em reconstrução.
    beijinho!

    ResponderExcluir

As palavras são espelhos. Para cada um que olha há uma nova face.
Obrigada por mostrar-me a tua!

Sê sempre bem-vindo!



*Por favor, se utilizar a opção de postagem 'anônima', não siga ao pé da letra, deixe seu nome. obrigada!