para justificar minha ausência, ainda que isto não me seja pedido, ainda que justificar não seja necessário, preciso dizer que pensei estar num daqueles angustiosos momentos em que nós, que vivemos as palavras ainda que amadoramente, emudecemos. No entanto, passado o momento do medo da ausência de voz, percebo que na verdade não emudeci. O que acontece é um processo diferente, as vozes que me expressam, (ou serei eu a expressá-las?) estão lá, todas dentro de mim. O que ocorre é que entre elas e eu se fez uma parede de vidro, blindada a prova de som. As palavras se agitam em vozes que gritam ainda que eu não as ouça, se lançam dos quartos escuros em busca da saída, mas não podem, colidem com o vidro, escorrem por ele em lenta agonia. E eu, do lado de cá, surda, tento segurá-las, juntar-lhes as letras, fazer qualquer contato. Em vão. E assim fico tentada a chegar a uma conclusão, ainda que nada definitiva, ainda que efêmera como qualquer conclusão que se preze: melhor ser muda do que surda.
"Procuro um nicho, não acho.
Procuro um espaço
por onde possa me esvair...
Encontro terreno seco,
leito estéril que suga minha liquidez,
arenoso beijo
que sufoca-me toda vida"
[Andrea de Godoy Neto]
Mas, Andrea, e as vozes deste belo poema, de onde vieram?. Se são deste momento, talvez seja ele um momento de decantação, de garimpo, melhor dizendo, e usando as imagens da água e da areia, de repente surge lá uma pepita brilhando na bateia (a rima não foi intencional!). E quem sabe se da aparente aridez não se abra um rico veio?
ResponderExcluirUm beijo.
Andrea,
ResponderExcluirAs palavras são caprichosas, nem sempre se disponibilizam para se sentar ao nosso lado. Aceitando isso, vai ver que elas acabam por voltar a sorrir. Vai ver.
Beijo :)
é um processo, de repente vai florir
ResponderExcluirbeijo
Nem muda nem surda. Sua voz ecoa ainda que você se guarde em silêncio.
ResponderExcluirbeijos
Temos os nossos momentos...
ResponderExcluirMasa sua voz está se fortalecendo e já nos conduziu a caminhos belos com esse poema.
Tenha uma ótima semana!
Beijos
oi linda, você faz falta, é uma das coisa boas e genuínas da blogosfera..
ResponderExcluirbjs.
São singnos e sintomas no quotidiano que medeiam a dor e a analgesia! QUANTA DORMÊNCIA INFINITA A ESCORRER PELO VIDRO DE NOSSAS VIDAS!! Bem gritado e livre me faço bobo, belo, bicudo, bisonho e dito,...deixo escorrer a tinta... Bom te ler...de volta!!!
ResponderExcluirUm bom abraço!
A vida é assim Andrea... Cheia de beijos arenosos e de areias movediças... Continuamos procurando espaço onde não há... e nos expandimos dentro de nós mesmos... e muitas vezes somos do tamanho de uma caixa de fósforos...
ResponderExcluirGostei do teu sussurro por lá... E agora vou voltar, para dentro do meu leito estéril que suga minha lucidez...
Não há água nesse curso, mas eu quase me afogo!
Abraço!