[Alguns trechos de mim...porque as palavras são espelhos...]

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Poema para peregrinos que não temem os abismos [do mundo ou da alma]


(O Abismo da Alma (ou O Iceberg)- óleo s/ tela de Guilherme de Faria)


Sou uma estrangeira, pele sobre o oco
andar ambíguo de quem mal sai do lugar
O mundo me estranha e eu a ele
- num cúmplice desajuste -
Desambientada ao raso que me cerca,
assola-me uma urgência por profundeza e amplidão
(onde estão? onde estou?)

Olho o chão, não há pertencimento
(e como poderia se não o reconheço
e nem ele a mim?)
firmeza estranha, só terra compactada e pedra
Pedra, pedra e poeira
- não sei se de estrela ou de gente -
dos pés gastos em descaminhos
dos olhos secos de esperas

Às vezes, me consome uma angústia
por tudo aquilo que ainda não vi
não me espelho nos rostos à minha volta
E, Deus! A superficialidade dos dizeres me sufoca
- a opacidade dos olhares me desconcerta -
Busco o ar e, estou certa,
ele é denso de partículas dos tempos
fragmentos das memórias coletivas

Sou peregrina numa terra sem resgate,
junto partes do que sinto
para compor uma aquarela
- há tintas que se avivam em água e sal -
As cores que pinto não traçam caminhos
mas abrem janelas, espaços entre mundos diversos
e neles me perco, andarilha entre becos,
seguindo a própria voz

E no silêncio em que me reconheço,
ainda busco um ponto - ou um universo inteiro -
que me sirva de regaço
onde possa repousar,
ainda que por um instante,
minha alma viandante de abismos.



[Andrea de Godoy Neto]

10 comentários:

  1. Aprecio muito te ler porque vou me reconhecendo em cada verso. Já te disse isso, mas não faz mal repetir, né? É sempre bom nos identificarmos com poetas.

    Beijo, flor.

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  2. No desassossego do poeta, a ideia de um ponto que sirva de regaço é âncora fundamental...
    Belo e profundo, Andrea!

    Beijo :)

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  3. Tenha certeza, que entre os olhares opacos que nos cercam a luz do teu abre caminhos de sensibilidade e reconhecimento.
    Saudades de vc.
    Beijokas.

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  4. Belíssimo!

    Teu abismo nos pertence.

    Beijos

    Mirze

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  5. A forma mais legítima de silêncio é aquela do estratégico autorecolhimento... Quando nos recolhemos, conseguimos a proeza de falar sozinhos... Esses são os melhores papos... Por que é só nessas horas que conseguimos ouvir tudo o que precisávamos saber!

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  6. Belo poema Andrea!
    As mais belas flores, florescem junto dos abismos!...

    Beijos meus!
    AL

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  7. O remanso de tua pequena parada...
    Bom te ler!

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  8. Linda poesia, aplausos!
    Gostaria de convidá-la a fazer parte deste projeto que engloba escritores e poetas da blogosfera.
    Não deixe de visitar o link abaixo, pois gostaria imensamente de ler uma de suas poesias por lá.

    http://wwwmeandyou-meandyou.blogspot.com/

    abraço carioca

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  9. E será que eu sou um desses peregrinos que mal sabem dos próprios abismos?
    Será que eu sou um desses meninos arrebatados por ilusórios impressionismos?
    E por quanto tempo ainda vou fazer perguntas sem resposta?

    Quanto mais eu vou achar tudo isso uma bosta?

    Queres saber?
    Não me perguntes!
    Desaprendi explicar!

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