[Alguns trechos de mim...porque as palavras são espelhos...]

domingo, 3 de abril de 2011

Inundação


(Artista: Ivan Koulakov - Pintura:Red Road)


Tu sabes, não sabes?
Eu sei que tudo o que imagino é engano
As certezas se perderam no lume de uma vela pálida
Tudo o que me sustenta hoje são as dúvidas
E, para cada uma delas, não quero respostas
Quero antes a fragilidade exposta
A ferida sem casca, olho aberto para receber o dia
A cada dia em que o novo vem

Tu sabes, não sabes?
De todo o resto que já fui eu
Não sei se tenho saudades
Nunca cultuei invólucros passados
Prefiro observar o que sobra quando as camadas se vão
A nudez que desvenda a face,
O calor da pele livre da ilusão
Ou o arrepio (frio) do vento onde se desfaz a esperança

Tu sabes, não sabes?
Apesar da aridez do caminho que se traça entre destinos
No fundo, o pouco que sei e o todo que não sei
Se desfazem feito pó em grão
Quando se rompe a tranca e se abre a porta
E tu jorras sobre mim sem anteparo
Como água que corre a preencher um vão
Feito represa que se impõe em inundação.

Mas, disso, tu sabes. Não sabes?


[Andrea de Godoy Neto]

15 comentários:

  1. Este é pra pasmar... Tô ca mão na cara igual ocê na foto! Hehe.

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  2. EXCELENTE!

    Como pó em grão [maravilhoso]

    Parabéns, Andréa!

    Beijos

    Mirze

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  3. Seu texto tem um quê de saber tudo subentendido.

    Muito belo!

    Beijo.

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  4. Que saudade desse furacão que passa por aqui quando leio teus versos! Bjos, Déia!

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  5. Andrea, sim, é bem melhor a ferida exposta...e o teu poema...precisa de respostas? Acho que não, pois tu as tem. Belo, menina! andava com saudades de te ler.
    Beijos

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  6. Também tenho dúvidas. São tantas que posso subir nelas e ver o mundo lá do topo... Mas nem lá do alto acho determinadas respostas... Desço e resolvo apagar as perguntas. Como eu fazia nos tempos de colégio em que resolvia o problema da caligrafia descuidada com uma ou duas investidas da minha borracha. O risco do lápis sumia. E eu podia tentar fazer de novo. Bem feito!

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  7. Me fogem as palavras, mas sobra admiração... Bjs.

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  8. Andrea querida,
    é mesmo bom que esse "Tu" saiba mesmo :)))
    beijo com saudade e saiu daqui encantada como você trabalhou a(s) dúvida(s).

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  9. doce andrea,
    o inevitável sol, o sol-quente-verão, há-de soprar a humidade do corpo no que sobra da inundação. ainda assim, mesmo que já com novas escamas e poros renascidos, a marca-d'-água, como nos livros, nunca mais se apaga. e ainda bem!
    beijinho, amiga!

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  10. O que me chegou aqui foi um sabor bem pessoal teu, mas também um certo sabor a Cecília Meireles... Ah, ser poeta, às vezes, é mergulhar na incerteza, não?
    Abraços grandes!

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  11. Cara Andréia, prezada.
    Bom te ler, te ver e te sentir perguntando!
    Muito bom, mesmo!
    Um bom abraço, não sabes?

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  12. na folhagem do céu




    “ un lenguaje que corte el resuello “ –

    octávi(d)o paz em seu “ blanco “
    - transblanco de haroldo -
    conduz à meditação:

    uma lâmina desventra
    - úmida de aço -
    a crença

    de que relâmpagos

    d
    e
    s
    c
    e
    m

    seguidos de tambores -

    o trovão
    murmúrio de fonte
    desarranja os céus ?!

    por ali um odisseu
    suscitaria o silêncio:

    “ a invenção do corpo “

    o olhar invertebrado
    sob um céu
    cercado de arcanos

    uma chuva de crisântemos
    por todos os lados
    reticulam a pálpebra
    de um fundo amarelo
    de topázio pálido

    a vida é perversa -

    indecifrável
    a vida
    in(di)visível

    uma linguagem
    que corte o fôlego

    - o orvalho do desfolhado olho -

    secá-las - as folhas -
    e pisá-las sob os pés
    e ouvir o ruído de uma fogueira

    ( arder as palavras solitárias )

    " la hora es transparente ":

    a vida é invisível
    desnuda constelação
    de temporais de vidro...


    www.escarceunario.blogspot.com

    www.setecetaras.blogspot.com

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  13. Fiz magia com todas as cores que tinha
    Fiz aparecer na tela um tocador
    Pintei-lhe um violoncelo a preceito
    Mas ele não sabia tocar uma música de amor…

    O amor nunca acontece sem amor
    Esta coisa do amor será fantasia?
    Será uma noite vestida de nostalgia?
    Será planta envergonhada que floresce ao fim do dia?

    Seja o que for, tem o nome de amor
    Acho bem que seja assim
    Há quem diga que se enraíza para sempre
    E floresce como planta de alecrim


    Terno beijo

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